sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pai,



 Meu pai, meu herói, bravo, ciumento, meio desligado das coisas, sério, as vezes bruto, e grosso, mas ainda sim, o melhor homem do mundo. Pai, as vezes você me trata com indiferença, diz que não sou mais seu bebê, mas talvez seja porque você tem medo de admitir que eu cresci, que não sou mais a menininha como a Duda que ainda espera sua aprovação pra tudo que vai fazer, mas não é bem assim, eu cresci sim, mas continuo a sua menininha de antes, continuo a sua garotinha, aquela que te ama loucamente, aquela que vestia suas roupas pra dormir sentindo seu cheiro, a mesma que pulava no seu colo cada vez que você chegava de viagem. Aquela mesma menininha que dormia agarradinha com você, aquela que um dia pegou uma caixa de sapato, pintou, colou um espelho pequeno na tampa e escreveu do lado de fora, “olha aqui quem é o meu herói”, e quando você abriu se viu ali, e seus olhos encheram de lágrimas. A mesma que um dia pegou uma foto sua 3x4 e colou o seu rosto no lugar do rosto do super-homem, pra te mostrar que é você o meu super-homem. A menininha a quem um dia você ensinou a escrever “te amo” ao invés de “tiamo”. A mesma menininha que você chamou a atenção várias vezes, aquela que caiu quando pensou que ouviu sua voz quando você estava viajando, de tanta saudade. Aquela pra quem você comprava um ursinho a cada viagem sua, e que dormia com a cama cheia de ursinhos, todos eles chamados Dudu, que era pra dormir sempre com o senhor ao meu lado. A mesma menininha que fez aquela peça teatral e que interpretou sua filha e que te fez morrer de rir com a fala Eu: “Oi, meu pai ta ai?” ; Menina: “Quem é seu pai?” ; Eu: “Meu pai é aquele que diz que ta sempre ocupado, e que quando acorda corre para o trabalho dizendo que ta sempre atrasado.”. Lembra disso? Sempre foi assim mesmo né pai?! Mas mesmo com toda sua ocupação, você sempre teve tempo pra mim, pra brincar comigo, me morder, me fazer cócegas, sentar em cima de mim dizendo que eu era um banco macio. O pai que um dia brincando comigo, mordeu meu bumbum e meu dente saiu, aquele dia foi motivo de risada né. O mesmo pai que me pegava no colo, cantava “gloria, gloria, aleluia” pra mim toda noite antes de dormir. O pai que quando eu não conseguia dormir me colocava dentro do carro e passeava comigo a noite ate eu pegar no sono, mesmo estando cansado e tendo que acordar cedo no dia seguinte. O pai que sempre fez tudo pra mim, e que hoje não é nem a metade do que foi um dia. Ah pai, se você soubesse a falta que me faz sentar no seu colo e te contar como foi meu dia, se você soubesse a falta que eu sinto dos seus beijinhos, e das suas risadas quando eu dizia qualquer besteira, coisas que nem tinham sentido, mas que te faziam ri, que te faziam feliz. Sinto falta de sentir que você sente falta de mim, falta do seu jeito durão de ser, mas que sempre meio envergonhado me dizia “eu te amo filha”, que falta me faz essa sua frase. Sinto falta, tanta falta daquele seu abraço apertado, e de quando você parava tudo que tava fazendo só pra vir me abraçar, e não importava quem quer que estivesse te esperando pra fazer o que quer que fosse, você parava tudo e me abraçava, um abraço daquele capaz de curar a dor mais profunda que eu estivesse sentindo aquele momento. Sinto falta do pai que sempre me apoiava, daquele pai que não ficava procurando acusações pra mim, mas que procurava sempre um ponto positivo no que quer que eu fizesse. Que falta faz aquele pai que me perguntava “e ai, como ta indo na escola? Qual foi sua nota em matemática? Tem que estudar mais minha filha.” Hoje você só diz “e ai, a faculdade?” e eu respondo “ta legal” e você diz “ta certo”. Quanta falta faz os nossos assuntos, hoje em dia metade do que nos falamos é só “hm” ou “aham”, e nem se quer conversamos por mais de 2 minutos sem fazer acusações um para o outro. Já se deu conta de que antigamente a gente passava meses juntos e não tínhamos brigas? Hoje em dia, se ficamos 4 dias próximos, pode contar que alguma discussão vamos ter, pode contar que em algum momento vamos nos desentender de alguma forma, e você vai me dizer que sou grossa, e eu vou te dizer que nem se quer faço parte da sua família e vou sair como sempre, batendo a porta, segurando o choro, e você assim como eu, vai fingir que nada aconteceu, vai sorrir pra quem quer que sorria pra você, e não vai demonstrar que esta triste, mesmo que esteja. Já se deu conta das acusações que fazemos? Você me chama de grossa, estúpida, diz que sou sem educação, e que sou uma péssima influência para meus irmãos, diz que ta acostumado comigo, que sempre te deixo, que eu não gosto de você, mas você não se dá conta de que se eu não gosto de dormir na sua casa, não é porque não gosto de você, é porque eu cresci na casa da Vó Luzia, você não se dá conta de que tenho tanta afinidade com tia Zezé porque sempre foi ela quem cuidou de mim, que ficou comigo internada no hospital quando você nem se quer passou lá pra me ver, que foi ela quem cuidou de mim quando eu estive doente, que era ela que acordava de madrugada pra fazer minha mamadeira em quanto você estava na sua casa, brincando de primeiro casamento quando já era o segundo. Você se deu conta de que precisava voltar a viver, a ser feliz, mas esqueceu de colocar junto com sua felicidade a sua filha, sei que nunca deixou de me amar, sei que você não quer me ver longe e que você me ama, mas não sabe demonstrar isso. Será que custa você me dar um sorriso quando eu pedir? Mas você vem com aquelas suas frases “tenho que ficar sorrindo o tempo todo agora, você é dentista pra ficar querendo ver meus dentes?” e essa frase sempre vem seguida daquela outra, “desculpa, eu to cheio de coisa na cabeça, mas também vai, não fica assim não, é palhaçada”. É, é uma palhaçada mesmo esse teatro de família feliz que fazemos toda vez que saímos, que vamos jantar fora, você mal olha pra mim e quem me pergunta sobre minha vida é minha madrasta, é ela quem me pergunta como vai a faculdade, se to gostando, como é o curso, o que tenho feito da vida, e ate mesmo se estou ou não feliz. E você? Você só abre a boca pra pedir o jantar, e comer. De vez em quando pega minha mão, faz um carinho e pergunta “e ae?” e eu respondo “nada ué” e pronto, nosso monólogo esta feito, é sempre isso, nunca existe algo além, mas você não se dá conta. Não sou eu quem preciso mudar sozinha, mas você também não se dá conta disso. O que aconteceu com aquele meu pai que me contava as coisas? Aquele que ia ate o colégio saber como eu era nas aulas, ou pra ouvir reclamações de que eu bati em um ou em outro menino da minha turma? Eu só queria que meu pai voltasse a ser quem era, que ele voltasse pra mim assim, do nada como esse ai surgiu. O pai que hoje me vê como uma “adulta”, o pai que hoje pega meus irmãos no colo e que quando eu sento perto, ou na perna dele me diz “ta calor filha, senta ali”, se você soubesse o quanto isso me fere, me magoa, e você acha que é ciume, não pai, não é, isso é só mais uma forma de você demonstrar o quanto você mudou comigo, e que de sua nega, eu virei a ignorante a quem você se refere todas as vezes quando fala de mim. Que de enganada, eu virei a errada de tudo, que de vítima virei vilã, que de filhinha, virei apenas a filha, aquela que vai ai passar uns dias com você. Virei apenas a bolinha de ping pong que vocês brincam, me mandando de um lado para o outro, dizendo que sou querida pelos dois lados por conta do seu dinheiro. Sabe o quanto dói? Sabe o que eu penso? Penso que eu sou apenas um “negócio”, que se você me quer contigo é pra não dar dinheiro, como diz minha mãe, e como diz o senhor, que se ela me quer é pra ter a pensão. Se você soubesse o quanto me dói você falar isso, se soubesse o quanto me fere tantas coisas, como quando eu te liguei, dizendo que tava internada de novo, e o que foi que você me disse? “To indo para o cinema com as crianças, quando sair te ligo”. Eu queria que você se preocupasse comigo, mas você faz isso? Sabe porque eu queria isso? Só pra sentir que você ainda tem algum medo de me perder, só pra ver se você ainda sente aquela dor que você sentia ao pensar que eu te deixaria. Sabe o que me faz ao menos sorrir, e o que é pra mim uma boa lembrança? O dia em que você chorando me pediu pra nunca te esquecer. Abri a porta do quarto e te vi lá, com um dos meus brinquedos na mão, chorando e olhando para aquele brinquedo como se fosse uma parte boa das lembranças que você tinha de mim, ai você me disse “filha, promete que nunca vai me deixar, promete que vai ficar sempre comigo, promete que não vai me esquecer” e eu prometi, e to tentando cumprir, mas você não ta deixando pai. Não sei se você notou, mas eu to cada vez mais afastada de você, pra quem ia ai de quinze em quinze dias, eu to indo de seis em seis meses, ou as vezes nem isso, ou menos ou mais, mas nunca mais fui ai com tanta frequência. Não sei se você já se deu conta, mas cada dia que passa, você tem mais coisas a fazer do que me ligar, e eu acabei me acostumando com todo esse abismo que se abriu entre nós, e to aqui, fingindo que não sinto sua falta, e você ai, com coisas demais na cabeça pra pensar em mim. Só queria que meu pai voltasse a ser quem era, aquele pai que era meu herói, aquele de quem eu falava tudo isso, só que só dizia bem, hoje se você pode perceber, tudo que falo é com uma certa mágoa, mas tudo bem, eu não consigo por pra fora essa mágoa, nem tirá-la de mim, e também não consigo te dizer tudo isso assim, com palavras sem que você grite e eu grite mais alto ainda e dê o assunto por encerrado antes que ele se encerre de verdade. Se hoje eu tivesse que fazer um pedido, um só pra que fosse realizado, eu pediria você de volta, pediria aquele meu pai que era o meu herói, o meu super-homem, aquele que cuidava de mim, que não importava o que quer que fosse, eu era sempre a mais importante, era isso que eu pediria. Você de volta pra mim, o meu pai :/ Eu te amo pai, eu não sei viver sem você, mesmo com tudo isso, você ainda é o homem mais importante da minha vida, e sempre será.

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